Pandêmico

Por que você deve ler O Homem Bicentenário? | Momentum Saga
Cena do filme O Homem Bicentenário de Chris Columbus

Com tanto tempo para pensar em casa, uma obrigação desses dias que começaram com uma ameaça de contágio massivo, não restrito ao município, mas de proporções que jamais vi e imaginei vivenciar, natural que a apreensão suba de nível diariamente, alimentando o medo que nos acompanha por toda vida.

Vemos que o grau de imaginação de um autor de ficção de talento pode nos convencer do universo criativo perfeitamente descrito, chegando a ter linguagem muito própria.

Quando a realidade nos revela personagens que a ficção rejeitaria pela impossibilidade de convencer o interlocutor das ideias e do farto estoque de mentiras, somos espancados mentalmente com frequência absurda, pois enquanto nos recuperamos de um pronunciamento, aparecem dez novos, recheados do que mais baixo a humanidade pode apresentar. Desde palavras mal escolhidas, infelizes ataques, gestos grotescos e completa irresponsabilidade ao fazer declarações que seriam estúpidas o suficiente se ficassem restritas a um pensamento, são repetidas como carimbos nos maiores portais de informação digital.

Poderíamos nos socorrer dos ícones do jornalismo mundial, mas a maioria morreu ou aceitou o jogo dos barões, o que é a mesma coisa. Especialistas de feira ocupam espaços com muito tempo nos principais veículos de comunicação, pois são convenientes para manter o torpor necessário ao cenário suavizado das subnotificações de mortes por COVID-19, versão moderna e atualizada da conhecida SARS de 1937.

Sabedores das formas de contaminação em massa de outras pandemias, autoridades, cientistas e profissionais de saúde pública nos orientam dos riscos e tentam minimizá-los com ações como o isolamento social. No entanto, os fundamentalistas religiosos pregam a desobediência às recomendações de segurança e sugerem manutenção de aglomerações em cultos, manifestações de apoio ao ditador e até organização de carreatas em protesto contra o que a Organização Mundial de Saúde estabelece como mínimo para evitar mortes em grande número tal qual ocorre na Itália, Espanha e muitos países do dito “mundo desenvolvido”. Todos, sem exceção, perceberam que o primeiro passo para proteção é o isolamento social.

Alguns usam o termo “azar” para termos um presidente da República desconectado da realidade, mas lembre que foi o voto (outros dizem que foi de protesto) o responsável por dar poder a uma figura explicitamente ignorante e agressiva. Fomos passivos, pois muitos anularam, abriram mão no segundo turno do voto que poderia ter barrado esta aberração. Não há purgatório, os que anularam merecem o fogo do inferno, ainda que se digam arrependidos.

Ficamos reféns de governadores e prefeitos, por (aí sim) sorte, alguns prefeitos perceberam que estariam prestes a ter de abrir valas comuns e enterrar muitos munícipes desnecessariamente e com alto custo eleitoral, se houver eleições este ano. O prefeito de Florianópolis agiu bem ao manter o decreto do isolamento social, contrariando uma semana de indecisão do governador, mas na semana seguinte enviou à Câmara de Vereadores uma solicitação de empréstimo para aquisição de ASFALTO, em plena crise pandêmica. Nenhum centavo, em regime de urgência, para equipamento de proteção individual para profissionais da saúde ou qualquer tipo de procedimento para mitigar os danos da COVID-19. Foi na base do “cada um com suas prioridades”.

Na ficção de Isaac Asimov, O Homem Bicentenário, nos emocionamos com um personagem fascinante de um robô muito evoluído que deseja avidamente duas características humanas: deixar de ser tratado como um objeto e poder morrer.

Na realidade imposta pela COVID-19, brasileiros estão com medo de morrer e sendo tratados como objetos.

(Fonte da imagem: ThinkStock)

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