Sabedoria

Conversando com a minha filha ouvi:

– Pai, deve ser muito triste não ter brinquedos, porque teríamos de ficar assistindo tv o dia inteiro.

Numa frase ela me fez pensar em todos os “brinquedos” que me eram disponíveis quando tinha a idade dela: pneu, subir em árvore, brincadeiras com os amigos da rua, etc.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, até ter fôlego para responder que na realidade a maioria das crianças do mundo não têm brinquedos comprados em lojas, mas que criavam os seus ou divertiam-se criando brincadeiras.

Subir em árvores era meu divertimento principal. Lembro bem de viver num pé de ameixa (nêspera), que além de ser uma fruta saborosa, tinha galhos fortes suficientes para me suportar pendurado apenas pelas pernas.

Voltei para minha filha e disse que antigamente, pelo menos para mim, não era tão fácil ganhar brinquedos de presente.

Realmente os aniversários eram mais aguardados justamente pela expectativa que se criava do que seria a única oportunidade, fora o natal, de ganhar algum brinquedo diferente. 

Não éramos menos felizes por isso.

A tv era em preto e branco, bem como não podíamos dispender muito tempo na frente dela, porque eram únicas por residência, tendo mais membros de nossa família interessados nos inúmeros programas que iniciavam as transmissões no período vespertino.

O rádio valvulado era de uso exclusivo de meu pai. Que coisa interessante aquele “negócio” de ondas curtas.

Não havia tv pela manhã.

Quem estudava no período vespertino era considerado alguém que estava “perdendo” o pouco de programação infantil.

Somente aos domingos assistíamos aos desenhos da disney ou o impagável coiote da warner. Pela tarde eu costumava ir sozinho ao cinema que ficava na quadra da minha casa, denominado Jalisco em homenagem ao estádio onde o Brasil sagrou-se tricampeão. Sempre nas sessões das catorze horas, pois era quando passavam filmes para minha faixa etária. Me chama à atenção hoje que não lembro de olhar o cartaz em frente ao cinema. Ou seja, era sempre uma surpresa.

Tudo começava com o Canal 100 e suas imagens em câmera lenta de jogos que já haviam ocorrido há quase um ano.

Hoje não temos mais cinemas fora dos shoppings, não temos árvores atrás das casas, não é permitido ter pneus em casa para brincadeiras por questões sanitárias.

Nossa sabedoria infantil foi trancafiada em nossas memórias e lá permanecerão até que tenhamos tempo de nos lembrar de como éramos felizes sem tanta tecnologia e informação.

Nas tardes

4 comentários em “Sabedoria

Adicione o seu

  1. Pô Joaquim!! Fizesse eu lembrar de um pé enorme de Flamboyant que tinha em frente da casa em que morei qdo criança. Eu coloquei uma chapa de compensado entre os galhos, bem lá no alto… e passava algumas horas da tarde lá em cima… ás vezes com livro do colégio, outras vezes fazendo até um lanche lá em cima!!! ehehehe

    A primeira vez que fui no Jalisco, fui assistir “Os caçadores da Arca Perdida”. ehehe

    Também lembrei das brincadeiras em brinquedos: Carrinho de rolimã, polícia e ladrão, pião, bolinha-de-gude, brincar de esconder, futebol em campinho de barro, soltar pipa e correr atrás delas, etc… isso tudo lá na Coloninha! :)

    Época boa!!!

    Abraço,
    Chico

  2. A infância hoje é vivida muito diferente do que foi a nossa. Eu sinto que nossos filhos não tiveram o costume de brincar na rua, de “roubar” frutas do pé do terreno do vizinho e de inventar seus brinquedos. Será que não temos uma parcela de culpa nisso? Será que ainda há tempo de resgatarmos um pouco de nossas brincadeiras com eles?

  3. José Mauro de Vasconcelos demonstrou em sua obra literária: “Meu pé de laranja lima que foi radio-difundida e mais tarde virou também novela na TV (eu lembro ainda de ouvi-la no rádio da cozinha) a importância que as árvores do quintal tinham para as pessoas e em especial para as crianças; assisti no Jalisco também (quanta saudade! dele e do cine Glória, os 2 no Estreito),a versão cinematográfica do “Pé de laranja” e lembro de chegar em casa, que era colada ao Corpo de Bombeiros, e me agarrar na minha árvore predileta, ainda com a minha mente de oito anos completamente inebriada com as sensações que o filme me passou: fomos nós, nascidos até meados dos anos 80 os últimos a viver numa Capital com cara de vila do interior, o Estreito agora é uma metrópole, nossos filhos perderam a liberdade pela modernidade, mas talvez seja só uma fase da nossa sociedade, quem sabe daqui a algumas décadas as ruas tornem~se seguras novamente.
    Abraço my friend e obrigado por me lembrar do Canal 100.engraçado é que devemos ter ido juntos ao cinema muitas vezes sem ainda nos conhecer.

Deixar mensagem para Joseane Corrêa Cancelar resposta

Site criado pelo WordPress.com.

Acima ↑