
Ilustração: Millôr Fernandes
Um grupo (só) de homens de “bens” reunia-se em um “estabelecimento”, por obrigação e determinação da “irmandade”.
Usavam trajes característicos, lembrando o período do império, muita pompa e circunstância.
Os mais antigos determinavam as pautas das reuniões, seguindo toda a liturgia milenar.
Dentre eles, um progressista, tinha chegado ali por conta de um tio que era da “irmandade”, por pedido da família, precisava de um “bom encaminhamento”, pois tinha ideias muito “modernas para a época”. Muito jovem, ouvia muito, nunca falava. Seguia as orientações, ainda que, por consciência, discordasse da forma como a estrutura funcionava, baseada em troca de favores entre os “irmãos”.
Logo percebeu que não existia avaliação de caráter, ética ou intelectual para favorecer A ou B, bastava ter ido parar ali por indicação de um membro.
Com o tempo, notou que além de fidelidade, se cobrava sigilo, este o maior bem da “irmandade”. Uma vez quebrados um destes dois “pilares”, coisas estranhas aconteciam com os “infratores infiéis”.
Dentro de um mesmo município, existiam inúmeros “estabelecimentos” com “figuras de alta patente” responsáveis pelos membros e ações determinadas pelos escalões superiores.
Atuavam em todas as áreas: política, economia, relações internacionais, instituições do comércio e indústria.
Sempre que uma conversa informal citava uma das instituições, vinham as perguntas: tem “algum dos nossos” lá ? Quem comanda as operações da “irmandade” naquela área ?
Mesmo que fosse em algum cargo de menor importância, o “irmão” era posicionado para obter informações privilegiadas.
Ingenuamente, na década de setenta desta história ficcional, os jornalistas apelidavam os “irmãos” com funções absolutamente injustificadas para a finalidade da instituição como ASMENES e ASPONES. Figuras que apenas recebiam salário, não executavam qualquer tarefa visível.
Lembrando outra organização dos livros de Ian Fleming, a Spectre, agiam de forma subterrânea, mas sempre conseguiam atingir suas metas mais ousadas.
O progressista, auxiliar de assistente do estagiário de coisa alguma, mudou seu pensamento e evoluiu, percebeu que era um títere que seria “controlado” para que não aplicasse as ideias “avançadas” para qualquer época. Com isto, mesmo no período de graduação, quando foi presidente de diretório estudantil, não conseguia organizar o movimento estudantil, já que ao tentar pensar ou criar formas de atuação, havia conflito de interesses com a “irmandade” e o medo de “decepcionar” os “irmãos” era maior que a determinação adolescente de partir para a luta por direitos, conquistas e justiça social.
Chegou a usar a palavra “cota” em uma das reuniões semanais, após segundos de silêncio constrangedor, os “irmãos” explodiram em sonora gargalhada, tomando a provocação como uma brincadeira adolescente. O tio já não lhe dava mais atenção, apenas quando era necessária a admoestação discreta e eficiente, caso insistisse em “começar a pensar por conta própria”.
Raras as vezes que os assuntos das reuniões da “irmandade” extrapolavam temas municipais, mas agora havia uma determinação do “grande pensador”. Estamos em desacordo com a principal mandatária do país, os “irmãos” não a querem mais.
Dentro da mídia, também há a salinha da “irmandade” que ajusta pautas e descreve sucintamente qual a linha editorial valerá para o dia.
Alguns são neoliberais, outros conservadores e há a ala ainda mais conservadora, deixando o progressista, promovido a estagiário, completamente perdido.
Com os “irmãos” em cargos chaves e em posições estratégicas, basta fazer acordos com a “irmandade” dos fundamentalistas do Congresso Nacional para executar o planejado.
Em universidades públicas, são eleitos reitores “irmãos”, preservando a mentalidade de que só é bom o que é privado, já apresentando palestras de como será o país pós-ações “corretivas”.
Ministros “irmãos”, interino “grande-irmão”, mídia de “irmãos”, congresso de “irmãos”, políticos progressistas “irmãos”.
Com esta “fraternidade”, decidiram acabar com o futuro de um país.
Ainda bem que nem todos os membros do STF, último bastião da justiça, são da irmandade, do contrário, estaríamos condenados.
Este texto é uma ficção, só existe na minha cabeça, não há nada que esteja associado com nossa dura realidade política.
O “progressista”, se converteu, agora era um reacionário de alta linhagem. Que orgulho para a “família”!
Assim viveram, todos os que não foram citados, “infelizes” para sempre.
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