David Gilmour – O show – parte três

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Ainda dia claro, uma banda que não conheço (culpa da minha falta de interesse por bandas brasileiras mais recentes) tocava suas composições. Era um trio. Percebi que algumas pessoas ao redor cantavam as músicas mas, sinceramente, não fazia a menor ideia, muito menos reconheci um refrão sequer. Um trio, baixo, guitarra e bateria.
Bastava o vocalista se apresentar ou a banda, teríamos alguma referência, mas ele parecia estar mais embasbacado de abrir o show do Gilmour do que lembrar que tinha um público potencial bem a sua frente.

Aumenta o contraste do céu com a lua, cada vez mais branca e nítida.
Ao contrário de outros shows, neste momento a adrenalina deveria estar causando algum tipo de aumento na ansiedade, uma sensação de estar em um lugar muito estranho, diferente. Mas não foi isto que senti.
Olhei para a Jô várias vezes, percebendo que ela não estava ansiosa, como de costume, mas alegre como uma criança que vai participar de uma grande brincadeira.

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Apagam-se as luzes do estádio.

Aplausos explodem, eis o homem.

Primeiros acordes, começa Rattle that lock, um pouco diferente da versão de estúdio, mas nem sua lentidão e aparente falta de punch parecem tirar o brilho do guitarrista do Pink Floyd.
Estamos todos boquiabertos e eu tentava conseguir algum foco na máquina, pois a distância era considerável e abusar do zoom e ISO iriam comprometer a qualidade da foto e, pelo menos desta vez, eu queria ter fotos legais.

Na fileira de trás, dois caras novos não calavam a boca, empolgados com a guitarra que ele usava, com os timbres, com todos os detalhes do som.

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Na frente, infelizmente, um pessoal pouco preocupado com os que estavam atrás, se postaram de pé e, apesar de inúmeros apelos, um deles chegou a se irritar e não desistiu de apoiar-se no vidro que separava a cadeira do gramado.

Hora de ser maduro e raciocinar que tocar um calçado nas costas dele daria uma sensação muito boa, mas iria começar um tumulto que me tiraria do show pelo qual esperei minha vida inteira.

Quando as vozes gravadas deixaram claro que iria tocar Wish you were here, os celulares foram ligados nas arquibancadas e o estádio iluminou-se suavemente, mudando o estado de euforia máximo pela execução da música que marcou muita gente, para mim tem um significado especial, pois foi a música que minha esposa tocava para mim no violão e cantava, logo que nos conhecemos. Como não me apaixonar ?

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Estávamos ali, segurando as câmeras, celulares e nos entreolhando com a trilha sonora de nossas vidas sendo executada pelo cara que a concebeu.  Me senti o cara e o primeiro arrepio veio.
Meus pelos do braço levantaram e eu não imaginava que, com cinquenta anos, um show mexeria com meus sentimentos daquela forma. Muito forte.
Se havia alguma forma de declarar amor, estava acontecendo com aquela música, lua, energia silenciosa que nos fazia ouvir e sentir os acordes.
Todos cantavam, como se tivesse sido escrita em português, com intimidade, com a cumplicidade de quem amava aquela canção tocada em um violão.

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Gilmour aproveita para tocar músicas que não são tão conhecidas, repertório que, como questionou o Gastão Moreira na entrevista coletiva de São Paulo sobre ele nunca tocar nada dos dois primeiros discos. Mas é sempre aplaudido.

A primeira parte do show passou voando.
Gilmour avisa que são quinze minutos de intervalo. As luzes acendem e podemos vislumbrar os sorrisos, abraços e lágrimas dos que estão na pista.

Importante haver este tempo para tomar um ar, lembrar que está acontecendo de verdade. Olho para o céu, lá está a lua. Tudo muito calmo. Não fui no The Wall do Roger Waters, mas creio que era um evento completamente distinto.

Percebemos que éramos os únicos naquele espaço que estávamos vendo pela primeira vez, pois uma rápida conversa com os que nos cercavam comentavam sobre as diferenças que perceberam em São Paulo e Curitiba.

Luzes desligadas.

Começa Arnold Layne, música que projetou o Pink Floyd no cenário psicodélico dos anos sessenta e que era de autoria do guitarrista e vocalista Syd Barrett. Ao contrário do que muitos pensam, Barrett e Gilmour eram amigos e conviveram nos arredores de Londres durante algum tempo, com a contribuição do segundo no álbum solo, na produção.

Gilmour cantou como se fosse dele.

Quando o telão mostra um mapa da América do Sul, a galera delira.

Coming back to life quase colocou o estádio abaixo. Uma reação muito mais forte que em outras músicas do Floyd.

Money causou também. Com o brasileiro João Mello fazendo trabalho de saxofone que, normalmente, seria feito pelo mesmo que tocou em Dark Side of the Moon, Dick Parry.
Na entrevista coletiva, Gilmour rasgou elogios ao garoto, mas não estava sendo apenas gentil, o curitibano mandou muito bem, seguro e conhece do riscado. De quebra, apareceu tocando violão.

Nas músicas do The Wall, quase sempre tinha o vocal do multi-instrumentista Jon Carin.

High hopes. Meu segundo momento de arrepios e emoção.
Uma música que falava em grandes expectativas, cujo clipe era emblemático, tratando de tudo o que carregamos na vida com a esperança que é merecido o sacrifício, mas também que somos exagerados em algumas apostas. O sino do início já criou o clima necessário para a entrada do vocal de timbre grave (raro) do Gilmour. No solo, não teve quem ficou calado. Braços erguidos e delírio. O gurizão que estava na fileira acima bradava: filha da puta ! filha da puta! (não no sentido pejorativo, mas por não saber como expressar tanta alegria)

O show poderia acabar logo após High Hopes, minha missão estava cumprida.

Eis que o Gilmour se despediu, mas não havia tocado Time, Run Like Hell e Comfortably Numb. Era como dizer que o mocinho do filme havia morrido de verdade. Conta outra.

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Voltou com os sons dos relógios que o Alan Parsons captou na relojoaria próximo aos estúdios Abbey Road no início de 1973.
Tentando imitar o Waters, Guy Pratt dedilhava o baixo para marcar o que seria o som da batida do relógio…
Começa
“…Ticking away the moments that make up a dull day
Fritter and waste the hours in an offhand way.
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way.
Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain.
You are young and life is long and there is time to kill today.
And then one day you find ten years have got behind you.
No one told you when to run, you missed the starting gun.”
Começa o solo de guitarra que tantos ouviram no vinil, num toca-discos mono da década de setenta e ainda assim ficávamos de queixo caído, marcado pelo chimbal de forma visceral.
Parece impossível, mas o público estava ainda mais empolgado, como se tivesse acordado de um sonho dentro de outro melhor ainda.
Run Like Hell, luzes, som, tudo maravilhoso.
Ouvindo a versão do filme do Waters, posso dizer que a versão do Gilmour sempre vai ser melhor, até porque o baterista dele é muito bom.  Phil Manzanera, companheiro de Gilmour de décadas, foi fundamental.
Para fechar com perfeição, a melhor de todas, Comfortably Numb com solos generosos e novamente tenho o corpo tomado por sensações indescritíveis. Dizem que depois de uma certa idade é tesão, mas creio que foi algo ainda melhor, tântrico.

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Duas horas e meia de show. Extasiados. A banda e nós.

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