Lugares doentes

doentes

Não vou falar de hospitais, ainda que seja o que o título remete, mas locais de trabalho.
Focando na realidade brasileira, desde a segunda metade da década de noventa, com a popularização da internet e início da oferta de banda larga, muitos profissionais perceberam as vantagens de montar um escritório virtual em casa, independente do tamanho do negócio, passou a ser viável.
Proximidade com a família, para os que não moram sozinhos, facilidades de evitar o trânsito de qualquer cidade brasileira, horários flexíveis, redução drástica no custo com alimentação, deslocamento e capacidade de atendimento remoto.
Os clientes passaram a entender também que o tempo menor para resolver problemas cotidianos era uma vantagem competitiva e econômica com o fornecedor de serviços que oferecia capacidade de atendimento remoto.
Na contramão da inteligência, surgiram os serviços de help desk, que são pessoas lendo scripts, robotizadas, com textos repetitivos e agradecimentos falsos. Um local onde a doença pode se instalar com muito mais facilidade. Não é vírus ou bactéria, é a doença psicológica, pois humanos robotizados não são solicitas ao exercício do pensamento, fazem e respondem perguntas, focam o assunto e, certamente, irão levar o cliente ao limite da paciência, mas isto não interessa, pois é transferência da doença: o cliente que se exploda!
Não conheço alguém que diga: nunca tive problemas em fazer uso do atendimento por telefone, pelo contrário, gostei muito, foi uma experiência maravilhosa!
Tecnologia pautando relações, relacionamentos que começam e, virtualmente, acabam sem um olhar, apenas espiadas.
Em paralelo, os cargos ocupados por pessoas que lidam com o trabalho tradicional, horário para cumprir, uma sala, uma mesa de trabalho, um computador, telefone fixo e smartphone.
Surge o paradoxo do trabalho formal e o informal, não do ponto de vista de direitos trabalhistas, pois empresas contratam pessoas para trabalhar, literalmente, em casa, bastando apresentar um relatório de produtividade, resultados e desenvolvimento de novas soluções. Mas a visão de como trabalhar.
De um lado, horário rígido, transporte até o local de trabalho, interação com outros humanos no trajeto, nem sempre agradável, ponto batido, sequência precisa de tarefas estabelecidas pelos processos da empresa, almoço fora, retorno, rotina, fim de expediente, retorno para casa.
De outro, capacidade de antecipar a atividade de um dia para o primeiro período, clientes satisfeitos, metas atingidas, sol brilhando, resto do dia para viver!
Ao contrário do que se possa deduzir, disciplina é exigida em ambos os casos. Disciplina é liberdade.
Volto a dizer que não estou fazendo um tratado trabalhista, muito menos defendendo o conceito de terceirização como abordado na atualidade, mas do ponto de vista de que o ambiente de trabalho pode ser extremamente estimulante ou terrivelmente depressivo.
Não pela rotina, mas a incapacidade de extrapolar tarefas diárias, impedimento de criar, processos que não fazem mais sentido, que se tornaram obsoletos, mas obrigatórios “porque sempre foi assim”.
No século XX falava-se que o grande mal seria a depressão de sociedades que estariam desenvolvidas, aparentemente felizes, mas sem sentido para a vida. Isto adentrou o século XXI e parece que piorou.
Trabalhar deveria ser algo simples, com resultados claros e com tempo para viver, não apenas sustentar a estrutura burocrática.
Somos humanos, mas não o somos quando estamos apenas sendo um pouco mais ágeis que uma máquina.

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