Ontem era melhor ?

Costumo buscar memórias de minha infância, mas com mais frequência que as pessoas que conheço.
Não por saudosismo, por falta delas, são exatamente o contrário, sempre presentes e me trazendo associações com o que vejo no cotidiano.

Memórias com mais de quarenta anos, são o dobro mais velhas que meu filho mais velho. Lembro da década de setenta, mas esqueço de algumas cenas que meu filho relata.

Leio e vejo muita gente buscando esta analogia, de tempos em que as “coisas” eram mais fáceis, mais baratas e funcionavam bem.

Mas nenhum tem a lembrança da carroça de padeiro que parava em frente a nossa casa, no Balneário, para perguntar se minha mãe queria “pão d’água ou massinha” ?
Um idioma que eu me acostumara, pois o conhecido pão doce das padarias self-service de agora, eram a massinha que, na época, era com ou sem farofa. Era assim, o pão chegava puxado por cavalo, o embrulho era uma folha de papel rosado que era dobrado nas bordas com uma habilidade extrema do padeiro. Tentava imitar, mas nunca ficava do mesmo jeito.

Os parentes passavam o verão na nossa casa para tomar banho na praia que tinha as três irmãs, que eram pedras das quais era possível mergulhar. Hoje é conhecida como a praia do cagão, sem precisar explicar o motivo.

Sempre tinha um grupo de boi-de-mamão na rua, com bernunça, cavalinho, urubu, médico, etc. Ninguém perdia a apresentação porque estava passando a novela ou o Jornal Nacional, aquilo era diversão garantida, sem idade.

Os meninos maiores sabiam fazer e soltar pipa. Ficava horas olhando aquele pedaço de papel colado em varetas de bambu marrom flutuando no céu sem saber quando teria idade para aprender a soltar pipa.

Todos brincavam na rua até o grito da mãe para jantar e não tinha prorrogação, chamou, corria para casa ou então se preparava para receber a devida admoestação. O combinado não tinha furo, acertada a hora, não tinha negociação. Talvez tenha sido aí que eu tenha entendido o sentido da expressão: dar a palavra.

Meus filhos quase não brincaram na rua, fizeram bom proveito da vida escoteira ao ar livre enquanto durou o encanto, mas a disputa de egos do movimento escoteiro acaba com a empolgação até de adultos.

Quando falta energia, minha esposa e eu trocamos histórias de nossas infâncias, com nossos filhos ouvindo incrédulos, pois não entendem como crianças de menos de dez anos brincavam na rua da casa, sem correr risco.

Ingênuos, alheios ao que acontecia ao país na ditadura, nossa infância nos parecia tranquila e segura, pois não pertencemos a famílias que tenham lutado pela redemocratização do Brasil, não tínhamos familiares desaparecidos e, no caso da minha sogra, não fazia ideia que a ditadura havia sido estabelecida a partir de 1964, por um golpe militar financiado por empresários e banqueiros, com o apoio político dos EUA.

Ignorando tudo, por qual motivo seja, estávamos livres de sermos torturados e mortos pelo próprio Estado que assim tratava os contrários ao regime, aos que entendiam como desordeiros.
Mas era estranho quando meu irmão, reunido com amigos, gritava: lá vem os homens! seguido de uma debandada geral. Quando questionava o motivo: a polícia da época não permitia que mais de duas pessoas estivessem reunidas na rua, pois podia se tratar de alguma organização contra a ordem estabelecida.
Dúvida pueril: mas ninguém fez nada de errado, qual o motivo para temerem a polícia ?

Uma boa lida nos livros de história que descrevem a época da ditadura, faz com que se entenda que regimes autoritários que se escondiam atrás de um apoio consistente da mídia chapa branca, criando a falsa impressão de tranquilidade, quando na realidade era um silêncio forçado sobre os desaparecimentos e assassinatos promovidos pelo Estado.

Passados cinquenta anos do golpe que tolheu a liberdade de escolha política, expressão e manifestação, temos um congresso aprovando leis que remetem à mordaça daquela época, que negam atendimento médico à vítimas de estupro e que querem impedir manifestações políticas contra um suposto golpe.

Estamos no século XXI, com contestação de pautas que já tinha sido superadas há cinquenta anos, com racismo assassino corroborado por um porta-voz da ditadura que alega que não há isto no Brasil, que só começou após a adoção de cotas para negros, de uma continuada agressão à lei maior do país, a Constituição Federal, de um Estado LAICO, por conta de uma bancada evangélica que tomou a Câmara dos Deputados como uma filial de suas estruturas neo-pentecostais (como bem disse o Ricardo Boechat em seu programa de rádio), definindo “novo” conceito do que é uma família, que aprovam leis excludentes, de uma estrutura comandada por um bandido.

Olhar para trás e dizer que era melhor, pode ser para a realidade daquela época, mas encaixar a ditadura com prego e martelo na realidade atual, após tantos avanços sociais e do trabalhador, é medir a circunferência da Terra com uma régua de trinta centímetros e ter certeza da precisão.

Não há como acreditar que a tirania de um governo que fez discurso de que os mais ricos tinham de ficar ainda mais ricos para ajudar a salvar o Brasil, tenha chance de acertar o que se supõe errado.

Democracia conquistada com as vidas que não são reconhecidas nos livros de história das escolas, com ódio e cegueira que a querem ao chão, resistirá e haverá contra-golpe, não seremos contaminados pela apatia e imobilidade, pois a maioria fez uso do direito ao voto em outubro de 2014. As eleições acabaram. Novo pleito em 2018.

Estudar o passado para não cometer os mesmos erros, perfeito, mas para escrever as mesmas linhas no futuro esperando resultados diferentes ?

Não há máquina do tempo, vamos para frente, construindo o futuro, mas que seja mais humano, voltado para as pessoas, sem ingenuidades ou aceitando a pasteurização intelectual imposta pela mídia familiar.

Sem racismo assassino, sem fundamentalismos religiosos, com participação popular e liberdade de expressão.

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