Acabou hoje a história de um ícone da literatura.
Ateu assumido, sempre trouxe na ironia o seu questionamento sobre a existência de um deus.
Minha convivência com o humor inteligente dele começou na década de setenta, ironicamente, durante o período da ditadura militar, pois meu pai era gerente de uma instituição bancária que “presenteava” os funcionários com assinatura da revista Veja (apoiadora do regime). Mas era no periódico que me habituei a folear as primeiras páginas, após as amarelas, para ser surpreendido com aquele desenho sem muita definição e a frase que me intrigava: enfim um escritor sem estilo.
Não havia respeito a temas, cores, perspectivas, realmente não havia estilo no desenho, despreocupadamente livre.
Mas o texto era delicioso, inteligente (na época não entendia muito bem), carregado de duplo sentido, mas sem perder a graça e crítica subliminar ao período de censura.
Com a internet fiquei mais próximo dele, conseguindo até uma resposta a um post meu no site dele, carinhosamente chamado de “email da teleitorada”.
Era pródigo em neologismos, mas nem de longe lembrava o ex-ministro Magri, porque utilizava o raciocínio extraterrestre para nos brindar com palavras com sonoridade superior.
Como ele foi tradutor de muitas obras originariamente escritas em inglês, sabia utilizar com elegância o trocadilho que, para ele, era forma mais baixa de humor.
No site dele hoje, não há nada além da foto dos óculos sobre a mesa. Nada mais expressivo para nos dizer adeus.

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