Há dois anos, meu pai estava sofrendo muito com as complicações pulmonares decorrentes de anos de tabagismo, hábito que havia abandonado trinta anos antes.
Está lá no atestado de óbito a causa mortis: tabagismo.
Foram dias difíceis para todos da família e inúmeros amigos que amealhou, mas para ele foram dias de luta.
Como um guerreiro que não aceitava se entregar, submeteu-se a tratamentos desgastantes, estava com oitenta e cinco anos que recém havia completado, enfermeiros despreparados, cuja prioridade eram os horários de entrada, medicamentos e final de expediente, pois os pacientes eram só mais um detalhe na rotina diária.
Alternamos momentos de silêncio, com gargalhadas homéricas, contemplação mútua, palavras escolhidas para estes momentos.
Mas o olhar dele era de um menino que tinha medo do desconhecido, pois foi extremamente organizado em vida, já não conseguia entender qual seria o final daquele capítulo.
O peguei diversas vezes me olhando como eu fazia quando estava doente, mas com a minha mãe ao lado da cama, segurando minha mão para deixar o carinho se sobrepor a qualquer incômodo.
No único gesto que lhe era permitido, um sorriso sincero e econômico que dizia: que bom que vocês estão aqui comigo.
Foi difícil perceber a figura paterna forte que me acompanhou até pouco tempo, orientando, dando apoio e as vezes apenas entendendo minha tristeza em silêncio respeitoso, mostrando que o nosso corpo não é eterno.
De certa forma, religiosamente, meu pai sempre foi uma incógnita, pois não era frequentador de qualquer culto, muito menos incentivador, mas não me deixou qualquer dúvida que acreditava em algo maior que o que conseguimos ver.
Meu avô, que me emprestou o nome, era um divulgador da doutrina espírita. Isso fazia parte de todas as lembranças que meu pai ilustrava com sua indiscutível habilidade para histórias de nossa família. Meu avô se foi um ano antes de eu nascer, mas nunca foi um estranho porque meu pai o trouxe em cada detalhe que lembrava, mesmo a maneira firme como se portava à mesa diante dos filhos.
Meu pai não fez nenhuma declaração final ou pedido que tenha confidenciado a qualquer dos filhos.
Permaneceu grato pela nossa presença até o último suspiro.
Não sei como explicar, mas ele me deu uma lição de tranquilidade, mesmo quando o momento é desesperador.
Partiu num sábado, muito quente, olhando para as árvores hoje derrubadas, que abrigavam muitos pássaros, cujo canto soava como melodia aos ouvidos dele.
Nos deixou, unidos, mas não duvido que foi para viajar para um lugar muito melhor.

Mano Incrivelmente ,você consegue expressar com suas palavras o meu mais profundo sentimento em relação ao nosso pai.Tudo o que você escreveu é como se eu visualizasse um filme passando e as cenas que vivemos nos momentos finais de seu desligamento dessa existência. Sinto muita falta dos domingos que passávamos juntos. Mas como estamos aqui de passagem e não podemos fugir dos ciclos de nascimento, velhice, doença e tenho certeza de nosso reencontro. .Pai você semeou a união entre nós e disso jamais esquecerei e a lição que nos ensinou foi: “casa de um homem é o seu castelo,e a família o seu bem maior”.Meu carinho e gratidão será eternoum abraço de coração .
Clarice
Foi um dos Tios que mais conheci, era um tipo especial, os encontros eram sempre com alegria, independente do assunto. Não devemos so lembrar e sim tambem praticar um modo de vida similar?
Um grande abraço para a Familia Maneca/Helena.