Após onze dias do show que assisti no Morumbi ainda estou meio fora do ar.
Minha esposa ouve U2 vinte e quatro horas por dia. Baixou a discografia completa e agora me bombardeia com perguntas sobre a banda, que ano teve tal show, etc.
Ao contrário do que possa parecer, não é um inferno estudar essa banda que começou com músicas de protestos políticos e se fez a partir de uma música que denunciava a covardia dos militares britânicos contra uma manifestação pacífica na Irlanda.
Saímos do hotel por volta das catorze horas com o intuito de evitar o trânsito louco de São Paulo na direção do estádio, pois fomos prevenidos pelo pessoal do hotel que isso ocorreu no dia anterior. Mesmo sendo domingo os arredores do Morumbi assustavam pelo número de pessoas.
Apresentei a uns indivíduos mal intencionados o meu ingresso que havia sobrado da desistência de uma amiga. Como queriam pagar muito menos que o valor, decidi mantê-lo e tentar na fila da entrada alguém que estivesse interessado.
Começou o périplo em busca do final da fila. Passava um pouco das quinze horas e continuávamos caminhando com a sensação que uma volta pelo sentido contrário teria nos poupado tempo.
Compramos duas camisetas, com o preço inicial de trinta e cinco reais, mas após um belo choro, cada uma saiu por vinte. Isso aconteceu com dois vendedores, pois minha esposa não gostou da primeira camiseta.
Na fila, um casal atrás da gente comentava que tinha ido no show POP que estava estampado na camisa do meu filho.
Apresentei novamente o ingresso extra e, lamentavelmente, não encontrei interessados sérios.
Por sorte ficamos parados na fila, que não parava de crescer, na sombra de uma gentil árvore.
O sol nos brindava com uma perspectiva de noite agradável, porém no horizonte aquelas malditas nuvens cinzentas insistiam em ironizar com nossas previsões mais otimistas.
Durante o lento caminhar da fila apareceram vendedores que são verdadeiros mestres do marketing, com argumentos incontestáveis, mesmo num local tão apinhado de ansiosos fãs.
De repente a fila começa a andar muito rápido, começamos a correr em alguns trechos. O estádio, reconhecidamente grande, parece interminável.
Sim, a pulsação altera já na fila, mas mantive a calma como sempre, para dar a sensação de tranquilidade para meu filho e esposa.
Paralelos aos que iam para a pista, optamos por ficar mais distantes do palco, sem as pressões características.
Começa a gritaria:
olha o pessoal furando a fila !
atenção !
Mais um momento de tensão, o casal da fila diz que no ingresso está impresso que é proibido filmar e fotografar. Eu levei minha câmera que faz ambos…e agora ?
Segue o fluxo.
Chegamos na entrada 15.
Minha esposa não se continha de alegria, estávamos em estado de graça.
Só pediram o ingresso, conferiram o código de barras.
Alguns metros adiante uma fileira de policiais faria a revista. Um deles gritava: mulheres somente aqui ! (mas não havia policial feminina com essa finalidade, deveria ser o mais velho e influente da tropa).
Minha esposa estava com a mochila, sombrinha, máquina, casacos de chuva para mim e meu filho, etc.
Muito tranquilos, entramos no estádio !
Mais uma acelerada na pulsação, iríamos dar de cara com o palco gigantesco.
Sem palavras…
Começa a cair a ficha: estávamos esperando pelo show !
Relógio: dezesseis horas.
Onde sentar ? Qual a melhor visão ? Onde as fotos ficariam melhores ? Sol ? Chuva ?
Lotação mesmo só lá na frente do palco, para o pessoal de dormiu na fila.
Nas arquibancadas as pessoas chegavam lentamente, nem parecia que a fila de fora tinha entrado toda ainda…
Fui fotografando o preenchimento dos espaços vazios.
Por umas três vezes o céu escureceu e a chuva quase veio. Mas o que me preocupava era o vento gelado que soprava sempre que acontecia isso.
Minha esposa desceu tranquilamente para procurar um banheiro e ainda voltou com dois hotdogs horríveis…comecei a achar que o cheiro do doritos era mais aceitável.
Por volta de dezenove horas e o estádio ainda não estava lotado e meu filho sentenciava: por que viemos tão cedo ?
Sinal do stress que o tempo sentado na arquibancada amarela pode causar, mas era apenas o começo.
Cinco minutos após desabou uma chuva que persistiu por uma meia hora.
Foi o suficiente para reduzir a quantidade de OLAS da torcida que iniciava à nossa esquerda e tomava proporções interessantes. Meu filho e esposa se divertiram muito, antes da chuva.
Minha esposa não levou capa, nem casaco, ficou molhando as costas, dividindo a sombrinha comigo, apenas com duas camisetas.
Passou frio calada.
Meu filho ficou direto na chuva lamentando não ter levado a calça de chuva que acompanha o casaco que ele trajava, estilo motoqueiro.
Molhados, tivemos de administrar os sentimentos e criar algum tipo de controle da tensão, mesmo que fosse na base do: eu também estou passando por isso !
Começa o show do Muse logo que as luzes dos refletores se apagam, tirando nossa visão esbranquiçada de, agora sim, um estádio lotado com capas de chuva.
Eis que a chuva também para.
O palco começa a nos mostrar os efeitos de luzes que nunca imaginamos possível. Não naquela proporção.
O som alto demais, até distorcendo o grave. Falei para meu filho que isso era típico de banda nova, que os músicos esgarçam o volume do instrumento para se sobressair dos demais…
Tocaram por uns quarenta minutos.
Serviu para todos jogarem a água para fora da roupa.
Um relógio surge ao final do show de abertura, no telão, nos dando a sensação que a proximidade da entrada do U2 fazia o tempo passar mais rápido.
Mas foi uma olhada mais atenta para perceber que o ponteiro dos minutos se movia muito mais rápido.
Fim da primeira parte.
Amanhã eu conto como foi o show.
Obrigado por comentar.