Copa do mundo na África do Sul

Tem se tornado comum criticar a estrutura viária, falta de segurança, alimentação, etc, que jornalistas encontram na África do Sul. Cheguei a receber um desabafo por email que, supostamente, teria sido feito por um jornalista gaúcho do Grupo RBS, descendo o pau no trânsito. Na rádio ele se dizia deslumbrado com o povo assistindo num telão, em torno de quarenta mil pessoas, num estádio para aqueles que não tinham como pagar o alto preço do ingresso. No artigo foi amargo e bastante impaciente com a estrutura física das instalações da imprensa internacional.

Jamais estive no referido país, porém é patente que após décadas de exploração do povo e recursos naturais daquela continente, com a indústria bélica fomentando guerras civis intermináveis, massacres hediondos de tribos inteiras, financiando de campanhas políticas para partidos que facilitam a entrada de multinacionais com isenção absurda de impostos, não teríamos o cenário modificado da noite para o dia.

Stephen Biko e Nelson Mandela foram símbolos da luta contra um dos regimes racistas mais ferozes da história da humanidade.

Ontem, um canal da tv aberta apresentou um documentário mostrando os guetos e as atuais favelas com pessoas morando em containers, sim os mesmos que foram reprovados para servirem como celas em Santa Catarina pela insalubridade. Somou-se o fato de continuarem miseráveis mesmo após a “queda” do Apartheid, com a eleição de Nelson Mandela e todo o cenário político mais “democrático” das últimas duas décadas.

Posto isso, aponto que não me surpreendi com as imagens e informações dos jornalistas que deveriam fazer a lição de casa e estudarem mais da história do continente berço da humanidade, mas que é também o mais destruído e abandonado pelas nações ricas. Resultante de processos colonialistas, com todos os defeitos herdados dos países que os dominaram durante séculos, agora passaram para a independência (na maioria das vezes com revoluções sangrentas) sem a devida preparação econômica e política para deixarem de ser muito mais que tribos geograficamente próximas, mas de etnias distintas.

Ainda que o mundo ocidental enxergue o continente africano como habitat de seres primitivos, estão lá inúmeros ícones do capitalismo usurpando recursos naturais até a completa exaustão, sem preocupar-se com os resultados ambientais e com a população. Não se trata apenas de oferecer empregos (quase beirando a escravidão), mas de desenvolver de forma sustentável o país que cede espaço para estruturas gigantescas que auferem lucros astronômicos. Deixarei de lado a extinção de animais que serviram para enfeitar as casas dos nobres europeus.

Estava na hora de acontecer um evento desse porte no continente africano, pois assim o mundo volta seus olhos para o que enche os olhos de alegria, mas também começa a ver que lá foi esquecida boa parte da humanidade. Fome, doenças e guerras civis foram criadas lá pelos colonialistas.

O mesmo jornalista que foi duro com a África do Sul está se gabando de ter feito um alerta para que os problemas não se repitam aqui no Brasil em 2014. Creio que tem um bocado de miopia e desinformação por parte desse senhor, afinal os problemas da África do Sul permaneceram lá, não foram removidos para a encenação do espetáculo da copa do mundo de futebol.

Ainda bem que enxergaram que tem coisa errada lá, senão a copa não valeria de nada.

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